dentro de ondas
I. O puxador sentiu o movimento brusco da mão que puxava-o com apenas um dos dedos cortados. Remexeu a gaveta que não limpava já fazia mais de um ano. Ela lavava os talheres e depois de enxuto jogava-os lá dentro da madeira suja. Entre tantas facas, colheres e garfos, achou ela: a faca afiada. Seu brilho reluzia aos seus olhos grandes e raivosos. De onde vinha sua raiva? Bobagem, pensou ela. Apenas isso, era tudo uma bobagem! Que se dane! Que se dane a carne. Com pulsos marcados, mas nunca deixando de serem firmes, ela segurou a faca e enfiou a lâmina reta onde poderia ser no seu próprio peito. Matou-a. Que se dane! Uma gota de lágrima escorreu em seu rosto. Algo sempre escorre de dentro para fora. Ela sentia o corpo do animal ainda vivo. Quando deixei que você me atravessasse? que se dane a poesia. A ponta da faca desceu fazendo um corte simétrico, espalhando sangue na tábua. Eu te dei as palavras que jorravam do meu peito! disse em voz baixa. O contorno da sua boca ganhou uma aparênc...