dentro de ondas


I.


O puxador sentiu o movimento brusco da mão que puxava-o com apenas um dos dedos cortados. Remexeu a gaveta que não limpava já fazia mais de um ano. Ela lavava os talheres e depois de enxuto jogava-os lá dentro da madeira suja. Entre tantas facas, colheres e garfos, achou ela: a faca afiada. Seu brilho reluzia aos seus olhos grandes e raivosos. De onde vinha sua raiva? Bobagem, pensou ela. Apenas isso, era tudo uma bobagem! Que se dane! Que se dane a carne. Com pulsos marcados, mas nunca deixando de serem firmes, ela segurou a faca e enfiou a lâmina reta onde poderia ser no seu próprio peito. Matou-a. Que se dane! Uma gota de lágrima escorreu em seu rosto. Algo sempre escorre de dentro para fora. Ela sentia o corpo do animal ainda vivo. Quando deixei que você me atravessasse? que se dane a poesia. A ponta da faca desceu fazendo um corte simétrico, espalhando sangue na tábua. Eu te dei as palavras que jorravam do meu peito! disse em voz baixa. O contorno da sua boca ganhou uma aparência grave. No meio das lágrimas, do sangue, da carne, da faca, da tábua dura, ela encontrou a resposta, bem ali. O corpo ainda estava quente. A faca. A carne. Era isso. Matou-a. Pressionou o dedo cortado no cabo da faca, fazendo pressão para sentir a dor na sua pele. Cortou em fatias o animal. Cada pedaço era cortado em pedaços iguais. O tamanho da sua delicadeza era um pedaço igual do seu desamparo. Sentia o seu corpo se esvaindo. Seu rosto já não é regado pelo sol das manhãs. Seus dedos sempre são cortados no mesmo lugar. Sua voz se perde no ar. É levada pelo vento que invade as frestas das janelas e portas, voando em espiral dentre as diversas espécies de plantas do seu quintal, subindo cada vez mais alto, onde só os pássaros, se fosse por Deus concedido decifrar as palavras, descobriria o ranger do seu coração. Gostaria de guardar seus segredos com os pássaros. Sua boca estava partida, no movimento de encostar o lábio inferior no lábio superior, sentia um gosto de sangue na língua. Porque em algum lugar algo se quebra, se altera, e a verdade vem junto com a luz do dia. É tudo tão simples como o telhado velho para onde olho quando deito, cheio de marcas da ação do tempo. As mesmas marcas de que quando jovem eu me perdia no teto, que agora, depois de anos, foram se alterando em marcas maiores e mais negras. Sinto algo rachando dentro de mim. Vejo a decadência dessas paredes que me cercam, pintura velha por cima de uma nova tinta, que todos os anos se tornam velhas e por cima recebem uma nova cor. Enquanto caminhava tinha em minhas mãos uma folha de papel que guardei para entregá-la. Uma estranha. Não entreguei. Rasguei em pedacinhos enquanto olhava para dentro de uma unidade de tratamento de esgoto. O chão era rochoso, me perguntei se ali passava as fezes. A casa. Quando o céu resolve chorar, pinga pouco a pouco água nos móveis velhos, estragando-os cada vez mais… Porque algo dentro de nós se altera. Porque quando alguém segura a cabeça de uma criança dentro do mar, fazendo encher seus pulmões d’água, algo se quebra dentro dela. Algo em si se torna tão violento quanto a mão adulta. A faca ainda continua a cortar. Não se pode voltar atrás depois do primeiro corte. Se eu ponho meu pulso para queimar, formando pequenas queimaduras arredondadas, algo se altera. Não tenho os mesmos pulsos. Mesmo que minha pele se regenere, mesmo que não exista mais marcas visíveis a olho nu, algo deixou de existir dando espaço para um outro algo. Às vezes o outro cresce tanto que não cabe, ou às vezes o corpo encolhe tanto que o outro que cresceu não cabe porque o corpo já não tem espaço para o novo. Enquanto me ponho a cortar, sou levada para o som dos lacres sendo tirados das latas de cervejas que minha tia catava nas ruas. Era o dinheiro do pão, ela dizia. Chegava com os sacos de lixos cheios de latinhas: Skol, Brahma, Itaipava, Schin, Amstel e Cristal. O quintal cheirava a cerveja. Percebo que meu dedo da mão esquerda sangrou. Bobagem! como sou tola! Existe uma linha delicada entre a vida e a morte, e no meio existe a angústia que paralisa o peito. Tiro da gaveta a faca e cravo na minha própria carne-de-bicho-humano. Eu que sou ruído estridente. A palavra aguda. Eu que sei cortar sem dó, mas também choro. Às vezes sinto-me indo embora, é preciso voltar, penso, e é por amor que volto, mas também é para os meus pés que retorno. Ninguém além de mim pode me salvar. Na mistura do meu sangue no sangue do animal, fui levada no banho de mar, quando minhas lágrimas se diluíram na maré de fevereiro e regressava novamente para dentro de mim. Eu era tão nova e já engolia o litoral inteiro. Bebia tudo. Eu e o mar. O mar era meu. Mergulhei e fiquei por um tempo debaixo d’água, sentindo meus ouvidos serem tapados e o silêncio era igual aos meus dias. Ainda estou submersa. Ainda corto a carne. Pressiono ainda mais o meu dedo machucado. O último corte é fatal. É quando a impossibilidade de retorno se torna mais impossível de se retornar. É quando tudo acaba. Matei-a. Não me lembro da primeira inundação, mas me lembro de que estive só. E ali na cama, meus olhos bem abertos, esperei que ela saísse para chorar. Quase. Levantei de peito desidratado e coloquei meus pés na sandália que eu iria morrer. Era a sandália desgastada de todos os dias. Era a sandália que eu calçava para correr as ruas na procura de algo. Estava decidido. Esperei um tempo até que os nossos caminhos não mais se cruzassem. A roupa para morrer não importa, tão pouco importava meu estado de semanas. Para ela, não importava se eu estava de estômago cheio ou vazio. Não importava os anos, a história. E eu não me importei por ela não se importar, ao invés disso, pensava nela com o último suspiro de carinho. Eu só precisava ir. Porque em algum momento algo se quebra. O apartamento sempre estava úmido. Peguei a chave fria e a porta se abriu. Repito, a porta se abriu. Andei com os passos firmes feito meus pulsos. Desci a escada rolante. Outra escada rolante. Parecia que morrer era descer com conforto infinitas escadas rolantes. Não vi ninguém e ninguém me viu. Era eu e algo que restava do eu. Quase. Encarei os trilhos e lembrei do frio das minhas chaves. O silêncio me levou às vozes barulhentas de casa. O que você está cortando? Alguém atrás de mim perguntou. Pergunte aos pássaros, disse.

II.

A estranha. O que quero dizer com o substantivo é que ele se submete a omissão dos detalhes físicos. Apenas era mulher. Se era feia ou bela, não importava. Algo em mim se desfez quando a vi. Pensei em escrever uma simples mensagem em um papel e, para entregá-la, dizer gentilmente que esqueceu de algo — e chutando pelos seus olhos, talvez tivesse esquecido. Ela não iria entender e eu estaria satisfeita por ser estranha para ela. Seríamos plural e desconhecidas. Mas como disse, algo se desfez quando a vi. Retornei a ti. É, você mesma, você que sabe quem é e por onde anda. Você que sabe manchar o papel com belas palavras. Rasguei a mensagem para a estranha. Escrever para outra, conteúdo que fosse, era trair você. Eu não sou poeta. Não escrevo. Não leio. Não sou lésbica. Deixo tudo isso para você. Leve tudo, por favor. Quero ser folha em branco.



III. 

Porque algo se quebrou em mim e, às vezes sinto a raiva que procura dilacerar a mim mesma, cometo a maior violência que me foi ensinada contra minha existência: procurar o sexo oposto para me punir.

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