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face to face

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    “Eu conheço essa solidão, essa solidão das pessoas, e sei que elas são corajosas em sua solidão. São como crianças que, no escuro, decidem não gritar. Porque podem ficar com mais medo se não vier ninguém quando gritarem. Elas choram em silêncio, contidas, em sua solidão.” “Estou com uma vergonha terrível. Eu gostaria, ao menos uma vez, de ter as palavras certas. Uma única vez.” “Passei um bom tempo na porta observando duas pessoas idosas. Em união. Aproximando-se lentamente daquele ponto misterioso e terrível em que vão ter que se separar. Eu vi a dignidade e a humildade e, por um breve momento, compreendi que o amor acolhe tudo, até a morte.” Três dias para terminar de assistir. Não é fácil. Embrulha. Bergman e sua capacidade de falar por meio de seus personagens com tanta poesia e, ainda assim, fazê-los parecer pessoas muito reais é o que o torna um dos artistas mais importantes — meu favorito — e impressionantes da história recente. Não há nada mais horrível do que a fr...

dentro de ondas

I. O puxador sentiu o movimento brusco da mão que puxava-o com apenas um dos dedos cortados. Remexeu a gaveta que não limpava já fazia mais de um ano. Ela lavava os talheres e depois de enxuto jogava-os lá dentro da madeira suja. Entre tantas facas, colheres e garfos, achou ela: a faca afiada. Seu brilho reluzia aos seus olhos grandes e raivosos. De onde vinha sua raiva? Bobagem, pensou ela. Apenas isso, era tudo uma bobagem! Que se dane! Que se dane a carne. Com pulsos marcados, mas nunca deixando de serem firmes, ela segurou a faca e enfiou a lâmina reta onde poderia ser no seu próprio peito. Matou-a. Que se dane! Uma gota de lágrima escorreu em seu rosto. Algo sempre escorre de dentro para fora. Ela sentia o corpo do animal ainda vivo. Quando deixei que você me atravessasse? que se dane a poesia. A ponta da faca desceu fazendo um corte simétrico, espalhando sangue na tábua. Eu te dei as palavras que jorravam do meu peito! disse em voz baixa. O contorno da sua boca ganhou uma aparênc...